domingo, 24 de agosto de 2014

Licenciaturas: Entrave ou Oportunidade? Um desafio para as Instituições de Ensino Superior

Licenciaturas: Entrave ou Oportunidade? Um desafio para as Instituições de Ensino Superior


 JORGE MIKLOS - REVISTA GESTÃO UNIVERSITÁRIA - 22/08/2014 - BELO HORIZONTE, MG



 Todo mundo fica chateado se o Brasil perde a Copa do Mundo. “Mas o Brasil fica em último lugar numa avaliação como o Pisa, todo mundo olha, não dá emoção nenhuma.” (“...) Precisamos criar uma rede de ‘educochatos’.” - Antonio Jacinto Matias – Vice-Presidente do Itaú. Em tempos de Copa do Mundo de Futebol, os meios de comunicação induzem a atenção da sociedade para as arenas e gramados. “A pátria em chuteiras” é uma das definições mais conhecidas da nossa identidade nacional. Brasileiro gosta de futebol e ponto. O futebol é a maneira como representamos o Brasil ou, nas palavras de José Miguel Wisnik “é um rito através do qual o País se enxerga” (2008). Qual a validade dessa compreensão? Em 2006, na Copa do Mundo de futebol, na Alemanha, o atacante francês Thierry Henry em horas de intervalo, concedeu uma entrevista para a imprensa que ficou célebre pela polêmica que suscitou. Thierry, solicitado a comentar sobre a qualidade dos jogadores brasileiros, falou com a categoria de quem entende pessoalmente do assunto. Tierry analisou: `Os brasileiros jogam bem porque não vão à escola; passam 12 horas batendo bola desde crianças o dia inteiro, todos os dias.` Estaria aí um retrato plausível para entender o Brasil? Somos bons no futebol porque somos mal em educação? Esse silogismo é obviamente questionável e rende muito debate principalmente entre educadores e sociólogos. Mas, se por um lado, a relação entre o futebol e educação caminha numa zona cinzenta da nossa compreensão, por outro não há como negar que o Brasil ostenta entre os indicadores nacionais e internacionais a posição reconhecida em ser gerenciador de um sistema educacional medíocre. Apesar de ser considerado um dos membros mais promissores dos BRICS[2], e também ser reconhecido pelo FMI como a sétima maior economia do mundo (um PIB estimado para 2014 de US$ 2.215 trilhões) e de outros indicadores que deixariam qualquer brasileiro médio orgulhoso, o país apresenta em educação outras posições. O Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) assevera que o Brasil está mais perto dos piores exemplos do mundo do que dos melhores. Em seu Relatório de Capital Humano, o WEF[3] colocou o país na 88ª posição de um total de 122 países quando se trata de educação. Segundo matéria publicada pela Revista Exame os indicadores colocam o Brasil mais perto de Burkina Faso (121º) e Iêmen (122º) do que da Finlândia (1º) e Canadá (2º), que lideram o ranking. Olhando a lista de maneira invertida, pode-se dizer que o país tem o 35º pior desempenho em educação. Ainda segundo a revista, para chegar a esta nada honrosa posição, o Brasil falhou principalmente na qualidade do ensino em matemática e ciência, quando de fato ficou entre os 15 piores do mundo, em 112º lugar. Se não há como associar futebol com educação, a interdependência entre educação e qualidade de mão de obra é indiscutível. O reconhecimento do nosso fracasso em educação deixa o Brasil na 57º colocação geral de qualidade de mão-de-obra, já que nos demais indicadores – como emprego e ambiente estrutural – o desempenho brasileiro fica até 12 casas abaixo[4]. No modelo econômico contemporâneo denominado pós-Industrial (Bell), pós-fordista (Kumar), Capitalismo Informacional (Castells) ou Sociedade da Informação (POLIZELLI; OZAKI) a educação é considerada o principal investimento no capital humano que nada mais é senão o conjunto das capacidades, conhecimentos, competências e atributos de personalidade que favorecem a realização de trabalho de modo a produzir valor econômico. Por capital humano entende-se que são os atributos adquiridos por um trabalhador por meio da educação, perícia e experiência. Dois terços do estoque total do capital nos Estados Unidos da América são humanos. Nesse sentido, considera-se que cada ano adicional de escolaridade significa em média 14% a mais na renda. Esses dados induzem a considerar que o crescimento econômico sem investimento em capital humano é desperdiçar a oportunidade de desenvolvimento. Relevante observar que crescimento econômico é a ampliação quantitativa da produção, ou seja, de bens que atendam às necessidades humanas. Já desenvolvimento econômico está associado às condições de vida da população ou à qualidade de vida dos residentes no país. O crescimento pode ser fugaz. O desenvolvimento é perene. Investir em educação significa empregar em desenvolvimento. Nas últimas duas décadas o Brasil conseguiu aumentar o acesso à escola, mas a qualidade é desastrosa. Para reverter esse quadro e construir u futuro mais promissor é preciso mudar a mentalidade e começar a tratar a educação como um investimento. Como mudar isso? Obviamente quando pensamos educação pensamos em políticas públicas, em projetos governamentais. Trata-se de analisar a questão do ponto de vista da complexidade. Segundo Edgar Morin (1991) complexidade (complexus: o que é tecido em conjunto) é um tecido de constituintes heterogêneos inseparavelmente associados. Pensar em desenvolvimento é investir em educação. Para pensar nesse investimento é preciso considerar as seguintes realidades: É preciso melhorar a qualidade do professor. Ampliar os cursos de Licenciatura; 86,7% das vagas em ensino superior são em instituições privadas. A partir de 1995 o setor privado na educação apresentou um crescimento de 47%. Apesar das oportunidades e das necessidades, atualmente os cursos de Licenciaturas vivem uma crise tríplice: uma crise de quantidade, uma crise de qualidade e uma crise sistêmica. Essas crises se agravam e ameaçam desestabilizar a imagem de futuro preconizada nos grandes projetos nacionais para as próximas décadas. Não há uma única disciplina em que o número de professores com formação específica (por exemplo, professor de matemática formado em matemática) seja igual ou superior à demanda. Em algumas disciplinas, a crise de quantidade é especialmente grave. Em física, por exemplo, o país forma cerca de 1.900 professores/ano. A demanda atual é de cerca de 60.000. Esta situação, idêntica à da química, da sociologia e da filosofia. A crise de qualidade, no entanto, pode estar associada a outros fatores, entre eles, os altos índices de evasão dos licenciados; as licenciaturas com cara de bacharelados; o apartheid que distancia a universidade da escola; os ambientes de aprendizagem inadequados; e o fato de as instituições privadas, que formam cerca de 70% dos professores do país, serem elas próprias consideradas, muitas vezes, de baixa qualidade. Os dados do Censo da Educação Superior (ES) de 2010 revelam, por exemplo, que, embora o número de concluintes bacharéis e tecnólogos tenha crescido nos últimos anos, o mesmo não pode ser dito dos licenciados, cujo número vem decrescendo. Pior: mesmo as matrículas nas licenciaturas vêm diminuindo, passando de 1.248.402 em 2005 para apenas 928.748 em 2010. Pesquisa com 1.500 alunos do Ensino Médio revelou: a carreira docente não atrai (quase) ninguém. Levantamento realizado pela área de Estudos e Pesquisas da Fundação Victor Civita comprova uma percepção alarmante: a profissão docente não é considerada uma opção atraente pelos estudantes do Ensino Médio. Segundo a sondagem, só 2% desejam cursar Pedagogia ou Licenciaturas. Por que uma IES iria investir em cursos de Licenciatura num país que não acredita em educação e tampouco na formação de professores? Justamente por que precisa! Há uma antiga história no mundo corporativo que ensina: Era uma vez uma indústria de calçados que desenvolveu um projeto de exportação de sapatos para a Índia. Em seguida, mandou dois de seus consultores a pontos diferentes do país para fazer as primeiras observações do potencial daquele futuro mercado. Depois de alguns dias de pesquisa, um dos consultores enviou o seguinte fax para a direção da empresa: - `Chefe, cancele a produção, pois aqui ninguém usa sapatos.”. Sem saber desse fax, o segundo consultor mandou à direção da empresa a seguinte observação: - `Chefe, triplique a produção, pois aqui ninguém usa sapatos.”.[5] A mesma situação representava um tremendo obstáculo para um dos consultores e uma fantástica oportunidade para o outro. A crise na Licenciatura pode ser encarada pelas IES da mesma maneira. Caminhos para atrair futuros professores. Parece que apesar do pessimismo que ronda a educação muitas pessoas acreditam na necessidade e na possibilidade de expandir e melhoras os cursos de Licenciaturas. Um exemplo é o movimento Todos pela Educação. Fundado em 2006, é um movimento da sociedade brasileira que tem como missão contribuir para que até 2022, ano do bicentenário da Independência do Brasil, o país assegure a todas as crianças e jovens o direito a Educação Básica de qualidade[6]. O movimento fomenta, entre outras ações, o incremento ma formação e carreira do professor: De acordo com dados do Censo Escolar 2010, 13% dos professores do Ensino Médio do Brasil não têm formação adequada. Esse é apenas um dos gargalos relacionados ao magistério no Brasil. Outro é a baixa remuneração: o professor recebe 40% menos do que a média de outros profissionais com o mesmo nível de escolaridade, segundo o Ministério da Educação (MEC). Diante desse cenário, o TPE defende uma formação adequada e sólida ao professor, que equilibre prática e teoria e que vise à garantia da aprendizagem do aluno, assim como uma carreira atraente, com salário equiparado às demais profissões e com plano de carreira estimulante (grifo nosso). Para o movimento, esses são pontos-chaves para impactar de forma positiva o bom desempenho do profissional em sala de aula e, consequentemente, para ampliar a oferta da Educação de qualidade. [7] Outro exemplo é a Fundação Victor Civita que apresenta alguns caminhos: Oferecer salários iniciais mais altos; Montar bons planos de carreira; Melhorar as condições de trabalho; Focar a formação em serviço nos problemas reais; Oferecer uma boa experiência escolar; Melhorar a formação inicial; Resgatar o valor do professor na sociedade; Tratar o professor como profissional. No que tange essas ações os IES podem atuar no sentido de oferecer cursos de licenciaturas com uma organização didático-pedagógica bem estruturada, com um corpo docente preparado para atuar na formação docente e uma infraestrutura capaz de proporcionar um espaço para a constituição dos professores. O papel da gestão O papel da gestão é fundamental. Primeiro é conscientizar os dirigentes da necessidade e da possibilidade desses cursos. Como já dissemos aquilo que parece deficiência pode ser oportunidade. Não se pode perder de vista o composto mercadológico de serviços educacionais. Partindo da premissa de que educação é um serviço prestado à sociedade e que a instituição particular (visando lucro e/ou difusão de ideias) só consegue se mantiver os consumidores desse serviço tiverem renda para manter as instituições é preciso na gestão do composto mercadológico como prática recomendada para orientar a oferta de cursos em IES. De acordo com o Professor Wille Muriel:[8] A fórmula do composto mercadológico prevê a combinação dos seguintes elementos1: produto ou serviço, preço, praça, e promoção (grifo nosso). Composto mercadológico é a combinação desses elementos em torno de um produto ou serviço. Essa combinação deve apresentar coerência entre os elementos, considerando-se os objetivos em cada momento do ciclo de vida do serviço educacional (lançamento, crescimento, maturação e declínio). Cabe ao gestor procurar oferecer o melhor serviço no sentido de reorganizar o currículo no sentido aproximar o curso do cotidiano das escolas construindo assim um caminho para que a teoria que se aprende na graduação sirva, de fato, para refletir sobre a prática. Nessa mesma linha, a gestão deve utilizar as ferramentas de liderança na gestão com docentes no sentido de motivá-los a aproximar o curso oferecido à realidade dos alunos melhorando o desempenho dos mesmos. O preço é um fator importante. Nesse sentido a gestão pode contribuir buscando para os alunos bolsas de estudo, incentivos, parcerias com escolas de ensino básico que podem apoiar estudantes e remunerar estagiários. Atualmente há muitas ações públicas e privadas que podem estimular os alunos a buscar uma licenciatura. A praça refere-se não apenas à localização física, mas também à infraestrutura. Com a expansão do ciberespaço pode-se também oferecer uma parte da grade curricular em formato EAD. Dessa maneira além de contribuir para a inclusão do futuro professor na cultura digital[9], discute-se o papel das tecnologias na educação na medida em que a educação do cidadão não pode estar alheia ao novo contexto socioeconômico-tecnológico, cuja característica geral não está mais na centralidade da produção fabril ou da mídia de massa, mas na informação digitalizada como nova infraestrutura básica, como novo modo de produção comunicacional e informacional. A cibercultura define essa nova ambiência informacional e dão o tom da nova lógica comunicacional, que toma o lugar da distribuição em massa, própria da fábrica e da mídia clássica, até então símbolos societários. Cabe aos cursos de licenciatura reconfigurar sua grade de formação. Este estudo não termina aqui. Há muitos aspectos que podem ser pontuados. E os já citados, podem ser ampliados. As IES podem e devem contribuir para cursos de licenciatura rentáveis e de qualidade. Formar bons professores. O professor é fundamental para a sociedade e exerce um trabalho importante, nobre, gratificante e de muita responsabilidade. Em 2014 a Copa do Mundo foi realizada pela segunda vez no Brasil. Nas semifinais o Brasil sofreu sete gols da seleção alemã. Parece que Thierry Henry estava equivocado. Não jogamos futebol tão bem como gostaríamos. Fica o desafio: driblar o diagnóstico de Thierry Henry e levantar a taça do desenvolvimento.


 Referências Bibliográficas 

 BELL, Daniel. O Advento da Sociedade Pós-Industrial. São Paulo: Cultrix, 1974. 

 CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede: a era da informação – economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

 MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Lisboa: Instituto Piaget, 1991. 

 POLIZELLI, Demerval e OZAKI, Adalton (Org.). Sociedade da Informação. São Paulo: Editora Saraiva, 2007. 

WISNIK, José Miguel. Veneno Remédio: O futebol e o Brasil, São Paulo, Cia das Letras, 2008. Referências Hipertextos http://pt.wikipedia.org http://www.weforum.org http://exame.abril.com.br/ http://mundocorporativosa.wordpress.com. http://www.todospelaeducacao.org.br http://www.cartaconsulta.com.br 

 [1] Licenciado em História e Ciências Sociais. Doutor em Comunicação Social. Professor Assistente no curso de Licenciatura em História das Faculdades de Integradas de Ciências Humanas, Saúde e Educação de Guarulhos e Professor Titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Paulista. 

 [2] Em economia, BRICS é um acrônimo que se refere aos países Brasil, Rússia, Índia e China e a África do Sul (South Africa). São economias em um estágio de mercado emergente, devido ao seu desenvolvimento econômico. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/BRICS. Acesso em 10. jun.2014. 

 [3] http://www.weforum.org/. Acesso em 10.jun, 2014. 

 [4] Dados extraídos de: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/educacao-brasileira-fica-entre-35-piores-em-ranking-global. Acesso 10.jun.2014.

 [5] http://mundocorporativosa.wordpress.com. Acesso em 10.jun.2014. 

 [6] http://www.todospelaeducacao.org.br/quem-somos/o-tpe/. Acesso em 10.jun.2014.

 [7] http://www.todospelaeducacao.org.br/indicadores-da-educacao/5-bandeiras. Acesso em 10.jun.2014.

 [8] Liderança na Gestão com Docentes. Programa de Capacitação para Coordenadores de Curso. www.cartaconsulta.com.br. Acesso em 10.jun.2014. 

 [9] Cultura Digital ou Cibercultura é definida por Francisco Rüdiger como a cultura que surgiu a partir do uso da rede de computadores. Uma formação histórica de cunho prático e cotidiano, cujas linhas de força e rápida expansão, baseadas nas redes telemáticas, estão criando, em pouco tempo, não apenas um mundo próprio,mas, também, um campo de reflexão intelectual, pungente, dividido em várias tendências de interpretação, Trata-se, no plano empírico de um conjunto de práticas e representações que surge e se desenvolve com a crescente mediação da vida cotidiana pelas tecnologias de informação. (RÜDIGER, 2011, p. 7). 



 Autor: Jorge Miklos - jorgemiklos@gmail.com

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