domingo, 24 de agosto de 2014

Gestão educacional : como gerir pessoas respeitando as diferenças

PATRICIA MALUF CURY - REVISTA GESTÃO UNIVERSITÁRIA - 21/08/2014 - BELO HORIZONTE, MG



Introdução
Educar é uma tarefa difícil e complexa. Gerenciar esse processo é mais difícil ainda. Por definição, gestão educacional consiste em coordenar os esforços cooperativos de um grupo de pessoas, alocando os recursos necessários para a concretização de objetivos na busca de resultados organizacionais (Paula, 2012).
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB 9394/96) norteou o ensino no Brasil, do básico ao superior, proporcionando uma maior liberdade a autonomia para as Instituições de ensino e seus gestores. Como exemplo das inovações curriculares da LDB em relação aos cursos superiores estão a flexibilização curricular com a extinção de um currículo mínimo, as avaliações internas e externas e a educação permanente e continuada, articulando a graduação com a pós graduação.
Essa tendência também foi observada internacionalmente, como o Processo de Bolonha, iniciado em 1998, com articulação dos alunos , cursos e instituições , envolvendo os diversos países da Comunidade Européia.
Tudo isso vai de encontro com a ideia desenvolvida por diversos educadores modernos e sintetizada pela UNESCO nas competências de aprendizado que o aluno deve desenvolver: aprender a aprender (competências pessoais), aprender a conviver (competências relacionais), aprender a fazer (competências produtivas) e aprender a conhecer (competências cognitivas).
Gestão educacional e competências de aprendizado
A nosso ver, a gestão educacional tem como um grande desafio trabalhar com o objetivo de desenvolver principalmente as competências relacionais no aluno. Isso se deve a diversos fatores: as diferenças entre os alunos, entre os professores e entre as gerações (professor- aluno).
Conhecendo as pessoas
Educar o ser humano requer conhecimento em diversas áreas: pedagogia, filosofia e psicologia, principalmente. Ate o final do século XIX, essas relações eram intermediadas pela filosofia. Por volta de 1860 surgiu o conceito da psicologia da educação. Para educar precisam-se analisar fatores pessoais e ambientais, avaliando as mudanças na maturação, no crescimento e no desenvolvimento das pessoas.
As pessoas aprendem de maneira diferente, dependendo, por exemplo, da sua personalidade: conforme Alonso e Gallego (2002), existem quatro estilos definidos: o ativo, o reflexivo, o teórico e o pragmático. O estilo ativo valoriza dados da experiência, entusiasma-se com tarefas novas e é muito ágil;o reflexivo atualiza dados, estuda, reflete e analisa; o teórico é lógico, estabelece teorias, princípios, modelos, busca a estrutura, sintetiza; e o estilo pragmático: aplica a idéia e faz experimentos.
Entre os diversos autores dedicados ao assunto, Vygotsky desenvolveu a teoria sociocultural, também chamada de psicologia sóciohistorica. Segundo esse autor, para o desenvolvimento e aprendizagem do ser humano a interação social é muito importante (La Taille,1992).
E o que isso tem a ver com gestão de pessoas? O mundo atual está em constante e rápida evolução. É muito difícil acompanhar o desenvolvimento tecnológico existente. Enquanto os professores lutam para trabalhar em sala de aula com tecnologias consideradas por eles como “modernas”, como por exemplo, o uso de PowerPoint em aulas expositivas, as crianças crescem usando IPad com milhares de jogos interativos e os adolescentes trocam informações pelas redes sociais.
Essas diferenças levaram a criar termos como geração X, Y , Z e os “Baby Boomers”, discutidas no gerenciamento de empresas e nos recursos humanos das mesmas para melhorar a produtividade das pessoas e diminuir os atritos existentes entre os diversos grupos. A Geração “Baby Boomer” são aquelas pessoas que nasceram entre 1946 a 1964, que gostam de uma carreira estável, sólida, que as realizam. A geração X (nascidos entre 1965 a 1978) são aqueles que trabalham para ganhar dinheiro, títulos e cargos, um pouco resistentes à tecnologia; A geração Y, (1979 à 1992, pessoas com cerca de 20 a 29 anos), são ambiciosas, querem mudanças, impacientes, ansiosas. A geração Z (nascidos depois de 1993, ou seja, com 12 a 19 anos, mais ou menos), já nasceu na era tecnológica, querem estudar, são mais maduros e tranquilos. O maior conflito costuma ser entre as gerações X e Y, ou seja, os novos professores e os alunos mais velhos. Estes não aceitam muito regras, são mais avessos à hierarquia. Enquanto os professores mais velhos são mais complacentes com esses alunos, mais paternais, os docentes mais novos tem a necessidade maior de impor suas ideias e sua posição.
Voltamos então aos principais pontos críticos da gestão de pessoas visando respeitar as diferenças: a heterogeneidade dos professores, devido às diferente formações profissionais e características pessoais; as diferenças da maneira de aprendizagem dos alunos, devido não só as características individuais da personalidade secundarias `as diferenças genéticas e sócio- culturais como ambientais e os conflitos entre gerações pela falta de entendimento da visão do outro (aluno X professor). Como trabalhar com todas essas diferenças?
Trabalhando com as diferenças
Antes de tudo, precisamos conhecer os professores. Podemos fazer isso em diferentes etapas, com diferentes abordagens:
Uma entrevista por um profissional psicólogo que trabalhe na gestão de recursos humanos, para avaliação geral do profissional. O objetivo seria ter uma avaliação por um profissional idôneo e experiente, que domina os princípios da manifestação comportamental individual e grupal, gerindo os fundamentos da gestão relativa à aprendizagem de comportamentos, o seu reforço, a motivação e satisfação laboral, assim como a organização e direção eficaz de equipas de trabalho (Porras 2001);
Uma avaliação individual dos professores, pelos membros do NDE, quanto à competência e empenho de cada um, para podermos trabalhar com a estratégia de liderança situacional (Blanchard, 2004);
Aplicação do Questionário Honey-Alonso de estilos de aprendizagem nos professores e nos alunos para verificar qual é o estilo de cada um(Allonso, 2002);
Capacitação do professor no sentido de conhecer as diferenças entre as gerações e os estilos de aprendizagem dos alunos, associada às estratégias pedagógicas para lidar com cada um dos estilos e com a geração dos alunos
Construção de uma estratégia de ação, envolvendo o Núcleo Docente Educacional, onde os professores seriam divididos segundo as suas características pessoais e seu próprio estilo de aprendizagem, para trabalhar em grupos com alunos com características semelhantes, como por exemplo um professor com características reflexivas trabalharia em tutoriais com alunos reflexivos, os pragmáticos com os alunos do mesmo estilo, etc. Esses pequenos grupos professor-alunos desenvolveriam estratégias de aprendizagem mais adequadas para eles e desenvolveriam a capacidade de compreensão das diferenças entre os grupos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Trabalhar em comunidade respeitando as diferenças individuais é muito difícil. Gerir pessoas diferentes é mais complicado ainda. O auto-conhecimento e o entendimento dos outros seres humanos e levam à melhor compreensão da situação facilitando o gerenciamento do grupo.

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.
John D

REFERENCIAS
1.Amaral e Barros Estilos de aprendizagem no contexto educativo de uso das tecnologias digitais interativas. 2004..http://lantec.fae.unicamp.br/lantec/pt/tvdi_portugues/daniela.pdf. Acessado em 12 de maio de 2014
2.Adriana Prates- conflito de gerações- http://www.youtube.com/watch?v=tLd9sB3x2JA . Acessado em 15de julho.
3.ALONSO, C. M.; GALLEGO, D. J.; HONEY, P. Los estilos de aprendizaje: procedimientos de diagnóstico y mejora. Madrid: Mensajero, 2002.
4.Blanchard K, 2004. WWW.kenblachard.com.br. Acessado em 18 de maio de 2014.
5.La Taille Y, Oliveira MK, Dantas H. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão Summus Editorial, 1992 - 115 pp
6.Porras2001- O papel fundamental do psicólogo na gestão de recursos humanos das organizações do século XXI. Revista científica eletrônica de psicologia Ano VIII – Número 14. http://www.psicologia.pt/artigos/ver_artigo.php?codigo=a0111&area=d8&subárea. Acessado em 12 de maio de 2014.

Autora: Patricia Maluf Cury

Licenciaturas: Entrave ou Oportunidade? Um desafio para as Instituições de Ensino Superior

Licenciaturas: Entrave ou Oportunidade? Um desafio para as Instituições de Ensino Superior


 JORGE MIKLOS - REVISTA GESTÃO UNIVERSITÁRIA - 22/08/2014 - BELO HORIZONTE, MG



 Todo mundo fica chateado se o Brasil perde a Copa do Mundo. “Mas o Brasil fica em último lugar numa avaliação como o Pisa, todo mundo olha, não dá emoção nenhuma.” (“...) Precisamos criar uma rede de ‘educochatos’.” - Antonio Jacinto Matias – Vice-Presidente do Itaú. Em tempos de Copa do Mundo de Futebol, os meios de comunicação induzem a atenção da sociedade para as arenas e gramados. “A pátria em chuteiras” é uma das definições mais conhecidas da nossa identidade nacional. Brasileiro gosta de futebol e ponto. O futebol é a maneira como representamos o Brasil ou, nas palavras de José Miguel Wisnik “é um rito através do qual o País se enxerga” (2008). Qual a validade dessa compreensão? Em 2006, na Copa do Mundo de futebol, na Alemanha, o atacante francês Thierry Henry em horas de intervalo, concedeu uma entrevista para a imprensa que ficou célebre pela polêmica que suscitou. Thierry, solicitado a comentar sobre a qualidade dos jogadores brasileiros, falou com a categoria de quem entende pessoalmente do assunto. Tierry analisou: `Os brasileiros jogam bem porque não vão à escola; passam 12 horas batendo bola desde crianças o dia inteiro, todos os dias.` Estaria aí um retrato plausível para entender o Brasil? Somos bons no futebol porque somos mal em educação? Esse silogismo é obviamente questionável e rende muito debate principalmente entre educadores e sociólogos. Mas, se por um lado, a relação entre o futebol e educação caminha numa zona cinzenta da nossa compreensão, por outro não há como negar que o Brasil ostenta entre os indicadores nacionais e internacionais a posição reconhecida em ser gerenciador de um sistema educacional medíocre. Apesar de ser considerado um dos membros mais promissores dos BRICS[2], e também ser reconhecido pelo FMI como a sétima maior economia do mundo (um PIB estimado para 2014 de US$ 2.215 trilhões) e de outros indicadores que deixariam qualquer brasileiro médio orgulhoso, o país apresenta em educação outras posições. O Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) assevera que o Brasil está mais perto dos piores exemplos do mundo do que dos melhores. Em seu Relatório de Capital Humano, o WEF[3] colocou o país na 88ª posição de um total de 122 países quando se trata de educação. Segundo matéria publicada pela Revista Exame os indicadores colocam o Brasil mais perto de Burkina Faso (121º) e Iêmen (122º) do que da Finlândia (1º) e Canadá (2º), que lideram o ranking. Olhando a lista de maneira invertida, pode-se dizer que o país tem o 35º pior desempenho em educação. Ainda segundo a revista, para chegar a esta nada honrosa posição, o Brasil falhou principalmente na qualidade do ensino em matemática e ciência, quando de fato ficou entre os 15 piores do mundo, em 112º lugar. Se não há como associar futebol com educação, a interdependência entre educação e qualidade de mão de obra é indiscutível. O reconhecimento do nosso fracasso em educação deixa o Brasil na 57º colocação geral de qualidade de mão-de-obra, já que nos demais indicadores – como emprego e ambiente estrutural – o desempenho brasileiro fica até 12 casas abaixo[4]. No modelo econômico contemporâneo denominado pós-Industrial (Bell), pós-fordista (Kumar), Capitalismo Informacional (Castells) ou Sociedade da Informação (POLIZELLI; OZAKI) a educação é considerada o principal investimento no capital humano que nada mais é senão o conjunto das capacidades, conhecimentos, competências e atributos de personalidade que favorecem a realização de trabalho de modo a produzir valor econômico. Por capital humano entende-se que são os atributos adquiridos por um trabalhador por meio da educação, perícia e experiência. Dois terços do estoque total do capital nos Estados Unidos da América são humanos. Nesse sentido, considera-se que cada ano adicional de escolaridade significa em média 14% a mais na renda. Esses dados induzem a considerar que o crescimento econômico sem investimento em capital humano é desperdiçar a oportunidade de desenvolvimento. Relevante observar que crescimento econômico é a ampliação quantitativa da produção, ou seja, de bens que atendam às necessidades humanas. Já desenvolvimento econômico está associado às condições de vida da população ou à qualidade de vida dos residentes no país. O crescimento pode ser fugaz. O desenvolvimento é perene. Investir em educação significa empregar em desenvolvimento. Nas últimas duas décadas o Brasil conseguiu aumentar o acesso à escola, mas a qualidade é desastrosa. Para reverter esse quadro e construir u futuro mais promissor é preciso mudar a mentalidade e começar a tratar a educação como um investimento. Como mudar isso? Obviamente quando pensamos educação pensamos em políticas públicas, em projetos governamentais. Trata-se de analisar a questão do ponto de vista da complexidade. Segundo Edgar Morin (1991) complexidade (complexus: o que é tecido em conjunto) é um tecido de constituintes heterogêneos inseparavelmente associados. Pensar em desenvolvimento é investir em educação. Para pensar nesse investimento é preciso considerar as seguintes realidades: É preciso melhorar a qualidade do professor. Ampliar os cursos de Licenciatura; 86,7% das vagas em ensino superior são em instituições privadas. A partir de 1995 o setor privado na educação apresentou um crescimento de 47%. Apesar das oportunidades e das necessidades, atualmente os cursos de Licenciaturas vivem uma crise tríplice: uma crise de quantidade, uma crise de qualidade e uma crise sistêmica. Essas crises se agravam e ameaçam desestabilizar a imagem de futuro preconizada nos grandes projetos nacionais para as próximas décadas. Não há uma única disciplina em que o número de professores com formação específica (por exemplo, professor de matemática formado em matemática) seja igual ou superior à demanda. Em algumas disciplinas, a crise de quantidade é especialmente grave. Em física, por exemplo, o país forma cerca de 1.900 professores/ano. A demanda atual é de cerca de 60.000. Esta situação, idêntica à da química, da sociologia e da filosofia. A crise de qualidade, no entanto, pode estar associada a outros fatores, entre eles, os altos índices de evasão dos licenciados; as licenciaturas com cara de bacharelados; o apartheid que distancia a universidade da escola; os ambientes de aprendizagem inadequados; e o fato de as instituições privadas, que formam cerca de 70% dos professores do país, serem elas próprias consideradas, muitas vezes, de baixa qualidade. Os dados do Censo da Educação Superior (ES) de 2010 revelam, por exemplo, que, embora o número de concluintes bacharéis e tecnólogos tenha crescido nos últimos anos, o mesmo não pode ser dito dos licenciados, cujo número vem decrescendo. Pior: mesmo as matrículas nas licenciaturas vêm diminuindo, passando de 1.248.402 em 2005 para apenas 928.748 em 2010. Pesquisa com 1.500 alunos do Ensino Médio revelou: a carreira docente não atrai (quase) ninguém. Levantamento realizado pela área de Estudos e Pesquisas da Fundação Victor Civita comprova uma percepção alarmante: a profissão docente não é considerada uma opção atraente pelos estudantes do Ensino Médio. Segundo a sondagem, só 2% desejam cursar Pedagogia ou Licenciaturas. Por que uma IES iria investir em cursos de Licenciatura num país que não acredita em educação e tampouco na formação de professores? Justamente por que precisa! Há uma antiga história no mundo corporativo que ensina: Era uma vez uma indústria de calçados que desenvolveu um projeto de exportação de sapatos para a Índia. Em seguida, mandou dois de seus consultores a pontos diferentes do país para fazer as primeiras observações do potencial daquele futuro mercado. Depois de alguns dias de pesquisa, um dos consultores enviou o seguinte fax para a direção da empresa: - `Chefe, cancele a produção, pois aqui ninguém usa sapatos.”. Sem saber desse fax, o segundo consultor mandou à direção da empresa a seguinte observação: - `Chefe, triplique a produção, pois aqui ninguém usa sapatos.”.[5] A mesma situação representava um tremendo obstáculo para um dos consultores e uma fantástica oportunidade para o outro. A crise na Licenciatura pode ser encarada pelas IES da mesma maneira. Caminhos para atrair futuros professores. Parece que apesar do pessimismo que ronda a educação muitas pessoas acreditam na necessidade e na possibilidade de expandir e melhoras os cursos de Licenciaturas. Um exemplo é o movimento Todos pela Educação. Fundado em 2006, é um movimento da sociedade brasileira que tem como missão contribuir para que até 2022, ano do bicentenário da Independência do Brasil, o país assegure a todas as crianças e jovens o direito a Educação Básica de qualidade[6]. O movimento fomenta, entre outras ações, o incremento ma formação e carreira do professor: De acordo com dados do Censo Escolar 2010, 13% dos professores do Ensino Médio do Brasil não têm formação adequada. Esse é apenas um dos gargalos relacionados ao magistério no Brasil. Outro é a baixa remuneração: o professor recebe 40% menos do que a média de outros profissionais com o mesmo nível de escolaridade, segundo o Ministério da Educação (MEC). Diante desse cenário, o TPE defende uma formação adequada e sólida ao professor, que equilibre prática e teoria e que vise à garantia da aprendizagem do aluno, assim como uma carreira atraente, com salário equiparado às demais profissões e com plano de carreira estimulante (grifo nosso). Para o movimento, esses são pontos-chaves para impactar de forma positiva o bom desempenho do profissional em sala de aula e, consequentemente, para ampliar a oferta da Educação de qualidade. [7] Outro exemplo é a Fundação Victor Civita que apresenta alguns caminhos: Oferecer salários iniciais mais altos; Montar bons planos de carreira; Melhorar as condições de trabalho; Focar a formação em serviço nos problemas reais; Oferecer uma boa experiência escolar; Melhorar a formação inicial; Resgatar o valor do professor na sociedade; Tratar o professor como profissional. No que tange essas ações os IES podem atuar no sentido de oferecer cursos de licenciaturas com uma organização didático-pedagógica bem estruturada, com um corpo docente preparado para atuar na formação docente e uma infraestrutura capaz de proporcionar um espaço para a constituição dos professores. O papel da gestão O papel da gestão é fundamental. Primeiro é conscientizar os dirigentes da necessidade e da possibilidade desses cursos. Como já dissemos aquilo que parece deficiência pode ser oportunidade. Não se pode perder de vista o composto mercadológico de serviços educacionais. Partindo da premissa de que educação é um serviço prestado à sociedade e que a instituição particular (visando lucro e/ou difusão de ideias) só consegue se mantiver os consumidores desse serviço tiverem renda para manter as instituições é preciso na gestão do composto mercadológico como prática recomendada para orientar a oferta de cursos em IES. De acordo com o Professor Wille Muriel:[8] A fórmula do composto mercadológico prevê a combinação dos seguintes elementos1: produto ou serviço, preço, praça, e promoção (grifo nosso). Composto mercadológico é a combinação desses elementos em torno de um produto ou serviço. Essa combinação deve apresentar coerência entre os elementos, considerando-se os objetivos em cada momento do ciclo de vida do serviço educacional (lançamento, crescimento, maturação e declínio). Cabe ao gestor procurar oferecer o melhor serviço no sentido de reorganizar o currículo no sentido aproximar o curso do cotidiano das escolas construindo assim um caminho para que a teoria que se aprende na graduação sirva, de fato, para refletir sobre a prática. Nessa mesma linha, a gestão deve utilizar as ferramentas de liderança na gestão com docentes no sentido de motivá-los a aproximar o curso oferecido à realidade dos alunos melhorando o desempenho dos mesmos. O preço é um fator importante. Nesse sentido a gestão pode contribuir buscando para os alunos bolsas de estudo, incentivos, parcerias com escolas de ensino básico que podem apoiar estudantes e remunerar estagiários. Atualmente há muitas ações públicas e privadas que podem estimular os alunos a buscar uma licenciatura. A praça refere-se não apenas à localização física, mas também à infraestrutura. Com a expansão do ciberespaço pode-se também oferecer uma parte da grade curricular em formato EAD. Dessa maneira além de contribuir para a inclusão do futuro professor na cultura digital[9], discute-se o papel das tecnologias na educação na medida em que a educação do cidadão não pode estar alheia ao novo contexto socioeconômico-tecnológico, cuja característica geral não está mais na centralidade da produção fabril ou da mídia de massa, mas na informação digitalizada como nova infraestrutura básica, como novo modo de produção comunicacional e informacional. A cibercultura define essa nova ambiência informacional e dão o tom da nova lógica comunicacional, que toma o lugar da distribuição em massa, própria da fábrica e da mídia clássica, até então símbolos societários. Cabe aos cursos de licenciatura reconfigurar sua grade de formação. Este estudo não termina aqui. Há muitos aspectos que podem ser pontuados. E os já citados, podem ser ampliados. As IES podem e devem contribuir para cursos de licenciatura rentáveis e de qualidade. Formar bons professores. O professor é fundamental para a sociedade e exerce um trabalho importante, nobre, gratificante e de muita responsabilidade. Em 2014 a Copa do Mundo foi realizada pela segunda vez no Brasil. Nas semifinais o Brasil sofreu sete gols da seleção alemã. Parece que Thierry Henry estava equivocado. Não jogamos futebol tão bem como gostaríamos. Fica o desafio: driblar o diagnóstico de Thierry Henry e levantar a taça do desenvolvimento.


 Referências Bibliográficas 

 BELL, Daniel. O Advento da Sociedade Pós-Industrial. São Paulo: Cultrix, 1974. 

 CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede: a era da informação – economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

 MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Lisboa: Instituto Piaget, 1991. 

 POLIZELLI, Demerval e OZAKI, Adalton (Org.). Sociedade da Informação. São Paulo: Editora Saraiva, 2007. 

WISNIK, José Miguel. Veneno Remédio: O futebol e o Brasil, São Paulo, Cia das Letras, 2008. Referências Hipertextos http://pt.wikipedia.org http://www.weforum.org http://exame.abril.com.br/ http://mundocorporativosa.wordpress.com. http://www.todospelaeducacao.org.br http://www.cartaconsulta.com.br 

 [1] Licenciado em História e Ciências Sociais. Doutor em Comunicação Social. Professor Assistente no curso de Licenciatura em História das Faculdades de Integradas de Ciências Humanas, Saúde e Educação de Guarulhos e Professor Titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Paulista. 

 [2] Em economia, BRICS é um acrônimo que se refere aos países Brasil, Rússia, Índia e China e a África do Sul (South Africa). São economias em um estágio de mercado emergente, devido ao seu desenvolvimento econômico. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/BRICS. Acesso em 10. jun.2014. 

 [3] http://www.weforum.org/. Acesso em 10.jun, 2014. 

 [4] Dados extraídos de: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/educacao-brasileira-fica-entre-35-piores-em-ranking-global. Acesso 10.jun.2014.

 [5] http://mundocorporativosa.wordpress.com. Acesso em 10.jun.2014. 

 [6] http://www.todospelaeducacao.org.br/quem-somos/o-tpe/. Acesso em 10.jun.2014.

 [7] http://www.todospelaeducacao.org.br/indicadores-da-educacao/5-bandeiras. Acesso em 10.jun.2014.

 [8] Liderança na Gestão com Docentes. Programa de Capacitação para Coordenadores de Curso. www.cartaconsulta.com.br. Acesso em 10.jun.2014. 

 [9] Cultura Digital ou Cibercultura é definida por Francisco Rüdiger como a cultura que surgiu a partir do uso da rede de computadores. Uma formação histórica de cunho prático e cotidiano, cujas linhas de força e rápida expansão, baseadas nas redes telemáticas, estão criando, em pouco tempo, não apenas um mundo próprio,mas, também, um campo de reflexão intelectual, pungente, dividido em várias tendências de interpretação, Trata-se, no plano empírico de um conjunto de práticas e representações que surge e se desenvolve com a crescente mediação da vida cotidiana pelas tecnologias de informação. (RÜDIGER, 2011, p. 7). 



 Autor: Jorge Miklos - jorgemiklos@gmail.com

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Literatura oral e cultura popular – um balanço historiográfico - (ou: Homenagem a Ariano Suassuna)

Literatura oral e cultura popular – um balanço historiográfico - (ou: Homenagem a Ariano Suassuna)


 BERNARDO BUARQUE DE HOLLANDA - UOL EDUCAÇÃO - 05/08/2014 - SÃO PAULO, SP


 “Na poesia se aninha a esperança de que um dia uma palavra dirá tudo”. Paul Zumthor “… esta glossolalia disseminada em fulgurações verbais”. Michel de Certeau “A voz modula os influxos cósmicos que nos atravessam e capta seus sinais: ressonância infinita que faz cantar toda a matéria…” Paul Zumthor Nas últimas décadas, em várias frentes e com distintos pressupostos, teóricos de relevo internacional - historiadores, antropólogos, sociólogos, hermeneutas, formalistas e linguistas -, vêm propondo uma nova mirada para o fenômeno da cultura popular. Todos partem do princípio consensual de que não é mais possível encarar o conceito de cultura em bases dicotômicas estanques e fixas. A pressuposição de que a cultura popular não deve ser vista de modo simplista, como um contraponto antitético da chamada cultura de elite, chegou a tornar-se hoje um lugar comum. Um longo percurso, todavia, iniciado nos anos 1970, foi necessário até que se alcançasse esse relativo consenso na atualidade em torno da complexidade da formação da cultura popular. A título de exemplo, é lícito lembrar Mikhail Bakhtin e seu inovador estudo sobre a experiência popular forjada na Europa durante o período medievo-renascentista. Com base na obra de um expoente da literatura francesa da Renascença, François Rabelais, ele demonstrou de que maneira a comicidade, o riso, o lúdico, o jocoso e todos os aspectos relacionados à irreverência típica do carnaval obedeciam aos ritos de inversão, à vivência da transformação cíclica da estrutura social. A revelação do avesso ritual da ordem estabelecida, em contraposição àquilo que no cotidiano era vivido como sério e distanciado, punha em foco o que ocorria nas praças, nas ruas e nas festividades públicas, dando a conhecer os mecanismos efetivos e a experiência autêntica da cultura popular, como ela se originava e como ela se plasmava ora em consonância ora em oposição com a chamada alta cultura e até com o calendário litúrgico-religioso. A partir de personagens como Gangantua e Pantagruel, Bakhtin surpreendia na obra de Rabelais a existência de uma circularidade cultural e de uma interdependência entre vários grupos sociais, que tanto influenciavam quanto recebiam a influência do folclore e das tradições populares coletivas. Em paralelo ao trabalho desse formalista de origem russa, em meados da década de 1970, Carlo Ginzburg, um expoente da micro-história, corrente historiográfica italiana, apresentava seu trabalho sobre o caso de um extraordinário moleiro de uma remota aldeia do norte da Itália que, no período da Inquisição durante os séculos XVI e XVII, foi submetido aos autos de investigação sob a acusação de heresia. Ao invés de privilegiar figuras conhecidas e grandes vultos como Galileu Galilei, Ginzburg descobria fontes inéditas que lhe permitiam devassar os inquéritos de um desconhecimento camponês, aparentemente de somenos importância, revelando o dia a dia desse obscuro personagem. Ao contrário das expectativas, Menocchio era alfabetizado, leitor de obras eruditas, sejam as canônicas autorizadas pela Igreja sejam as tidas como heréticas. Com base em suas inusitadas leituras, o excêntrico moleiro forjou sua própria cosmovisão do universo e da origem do mundo, desafiando os preceitos da Contra-Reforma então em curso, o que acabou por levá-lo a interrogatório e a execução sumária. Essa pesquisa pioneira permitiu a Ginzburg mostrar o quanto a cultura popular de uma longínqua região pode absorver influências da língua culta, da cultura oficial e das convenções religiosas e, ao mesmo tempo, até que ponto essa recepção não é passiva, sendo capaz de questionar o status quo, elaborando as suas próprias representações da vida social e da existência coletiva. Para fins de ilustração, esses seriam apenas dois dos inúmeros autores pinçados na sociologia das culturas populares, que se empenharam em formular teorias nas quais o que se convencionou chamar popular foi reconceituado. A mesma perspectiva pode ser conhecida de uma maneira mais coesa e sistemática na obra do historiador inglês Peter Burke, intitulada A cultura popular na Idade Moderna, um panorama do processo de descoberta e invenção das tradições populares de que o romantismo alemão foi precursor no século XIX. Esse movimento liderado por Goethe e Herder na Alemanha foi um dos mais importantes na Europa e fez intelectuais, também conhecidos como antiquaristas, passarem a valorizar o ‘espírito do povo’ e a ‘alma nacional’ na história literária europeia. No Brasil, estudiosos da geração de 1870, como Sílvio Romero, iniciaram uma série de estudos sobre a poesia popular, amparados nessa mesma missão de salvaguardar as tradições coletivas em vias de descaracterização, dando origem a uma linhagem de folcloristas que chegaria ao modernismo brasileiro com Mário de Andrade e Câmara Cascudo. Em relação ao caso brasileiro da Literatura de Cordel, a renovação dos estudos em âmbito internacional começou ainda em fins dos anos 1960 com a abordagem do folclorista espanhol Júlio Carlo Baroja e do historiador francês Robert Mandrou. No tocante à littérature de colportage francesa, reconhecida graças às pesquisas de Mandrou sobre os milhares de livrinhos reunidos na Bibliothèque Bleue, a história das edições e das práticas de leitura desenvolvidas por Roger Chartier demonstraria a complexidade de suas origens e de seu intrincado itinerário envolvendo a elaboração, a edição, a impressão, a difusão e a recepção entre o público ouvinte e leitor da França rural e das vilas normandas dos séculos XVIII e XIX. Tal como os autores supracitados, Chartier partilhava a ideia de que as práticas e as representações culturais não poderiam mais ser vistas através da oposição macroscópica entre cultura popular e cultura erudita, a partir de oposições duais e de polaridades unívocas que ignoravam os intercâmbios, as imbricações e os empréstimos fluidos estabelecidos pelas múltiplas esferas da vida social. Em suas palavras: “… o conceito de cultura popular – que forneceu as bases para os primeiros estudos pioneiros sobre os livrinhos populares – deve ser agora questionado”. Esse questionamento das formas de produção mostrava em que medida os folhetos de cordel não constituíam artefatos naturais, sem intermediários, dados de antemão e cuja autoria fosse única, pura ou exclusiva. A materialidade dos cordéis atravessava uma corrente de elementos que acionava uma diversidade de agentes - o versejador, o tipógrafo, o editor, o xilógrafo, o vendedor e o leitor - e muitas alterações ocorriam nesse mosaico de interações sociais. Chartier acentuava ainda que, longe de ser apenas espontâneas, as criações populares reuniam em si um caleidoscópio de influências, incidindo na fabricação dos textos, desde os manuais, os romances, os contos de fada até a alta literatura e os escritos religiosos. Da mesma maneira, o autor sustentava que a suposta originalidade e espontaneidade do texto devia ser relativizada, haja vista o elevado grau de intervenção editorial. O trabalho de adaptação dos editores visava quer o controle do que vinha expresso nos folhetos quer a modificação do discurso a fim de que as histórias se tornassem mais atraentes e mais acessíveis ao grande público. As referências visuais e os artifícios mnemônicos tinham por finalidade atingir um número maior de leitores que, ao contrário das formas de leitura impostas pela norma culta, estavam acostumadas às descontinuidades e à fragmentação da narrativa. Assim, a classificação em gênero dos cordéis era uma codificação feita a posteriori,pela ação direta dos editores, o que criava expectativas e gerava demandas de interpretação, propiciando a ampliação do número de vendas e de leitores, fomentando o consumo da literatura popular. Ao lado da discussão sobre os suportes, sobre a produção dos objetos culturais e sobre a circulação das mensagens, uma outra linhagem de estudos vai ao encontro do enfoque de Chartier. Trata-se da perspectiva inaugurada pelo medievalista suíço Paul Zumthor. Este dá ênfase ao conceito de performance, notadamente aquele relacionado à poesia oral europeia, de origem medieval, que destaca a importância da corporeidade presente em todo ato de ler em público, com a articulação entre a dimensão escrita e a dimensão falada na literatura popular. O traço de união entre o gesto e a fala na recitação das poesias, onde desponta o sentido cênico e teatral da cultura popular, bem como a “movência” do texto oral, recuperaria a questão da totalidade da percepção sensorial, reunindo aspectos antes isolados, fragmentados e tratados à parte, com considerações exclusivas que se atinham ao conteúdo ou ao texto gráfico em si. Esse estudioso genebrino da Idade Média, que examinou na Sorbonne, em 1980, a tese de Idelette dos Santos sobre o teatro de Ariano Suassuna, voltava a destacar o caráter indissociável entre “a letra e a voz”, entre a vocalidade da palavra e a poética vocal no Ocidente, tal como estabelecida antes da invenção da imprensa por Gutemberg. Tudo isto antes da inauguração da modernidade, que hipostasiou a dimensão grafocêntrica da literatura. No projeto de Zumthor, esplendidamente exposto no livro “Introdução à poesia oral”, publicado em português pela Editora UFMG, graças ao percuciente trabalho da pesquisadora de origem baiana Jerusa Pires Ferreira, o lugar de uma obra extrapola os limites do registro textual. Na sua poética da voz, ele passa a salientar: “a pessoa e o jogo do intérprete, o auditório, as circunstâncias, o ambiente cultural e, em profundidade, as relações intersubjetivas, as relações entre a representação e o vivido”. À luz de tais pressupostos, a abordagem diferenciada da poética popular oralizada fornece subsídios e respalda novos estudos sobre a produção da literatura de cordel no Brasil. Acreditamos que todas essas questões historiográficas, situadas nos domínios da Antropologia, da Comunicação e da História, são por demais instigantes para o entendimento da gênese, da identidade e da poiesis dos cordelistas brasileiros, bem como, em sentido mais amplo, para o avanço dos estudos de literatura oral no país.